sábado, 22 de março de 2014

A Igreja Universal do Reino do Rock



A Elayne encontrou o Adauto no corredor da repartição. Apesar de trabalharem em setores próximos, pouco se viam. A Elayne era muito reservada e quase nunca saía da sua sala.

Com o tempo, aqueles encontros “casuais” se tornaram mais frequentes. Já a Elayne ia a observar o Adauto com outros olhos. No início, julgava-o estranho, com os cabelos rareando na cabeça e a camisa de botão preta, sempre preta, como se tivesse comprado várias delas numa liquidação de shopping. Mas entre um olhar e outro, um copo d’água e outro na copa, trocavam umas palavras. Era quando ele sorria para ela com a boca grande, os dentes perfeitamente brancos. Elayne derretia-se. Logo se apaixonou.

O problema é que ela nada sabia sobre o Adauto. Ele nunca haviam conversado sobre coisas pessoais. Nem uma palavra sobre família, sobre onde morava, nem mesmo sobre o colégio em que estudaram na infância. Tudo o que Elayne sabia era que o Adauto tinha passado no concurso e vindo de outro Estado. Mas quando se viu apaixonada, preocupou-se. Afinal, quem seria aquele colega de trabalho tão misterioso?

Como a Elayne era uma mulher muito religiosa, do tipo que frequentava o culto todos os sábados, pagava dízimo ao pastor e lia salmos bíblicos antes de dormir, quis logo desvendar aquele que, segundo supunha, era o maior dos mistérios que o Adauto poderia esconder: a sua religião. “Se for católico, não namoro; vai dar problema em casa”, ela pensou. Mas seu maior medo era que ele, com aquelas roupas pretas, com aquele jeitão de roqueiro, fosse ateu. “Meu Deus, eu não posso namorar um ateu! A bíblia diz que o ímpio está condenado ao inferno! O que o pastor vai dizer? E as virtudes teologais?”

Mas Elayne tinha coragem. A coragem que só tem quem está apaixonado. Assim, mesmo aturdida por esse rodamoinho de pensamentos confusos, mesmo temerosa de que pudesse vir a decepcionar-se, estava decidida a esclarecer a dúvida. Gostasse ou não, ela precisava saber a religião do rapaz por quem se deixara enamorar.   

Naquele mesmo dia, como de costume, encontraram-se no corredor durante o horário de expediente.   

- Oi Adauto.

- Olá Elayne.

- Posso te fazer uma pergunta?

- Contanto que não envolva dinheiro, pode sim – ele brincou.

- É que estou com uma dúvida.

- Pois diga.

- Qual é a tua religião?

Ao ouvir a pergunta, Adauto vacilou. Coloco as mãos no queixo. Parecia pensativo por alguns instantes. Depois, como se tivesse tido uma ideia que o alegrou, pôs-se a responder:

- Minha religião é o rock n’ roll.

- Como?

- É isso mesmo que tu ouviste. Minha religião é o rock.

Elayne, que já desconfiava pelas roupas pretas que ele era roqueiro, não demonstrou grande surpresa. Na verdade, até ficou aliviada por saber que ele não era ateu. “Pelo menos ele tem religião”, ela pensou numa fração de segundos, a rir invisivelmente. Então, intuindo o tom zombeteiro da resposta, não se fez de rogada e emendou:

- Ah é? Tua religião é o rock? Hum. Interessante. Nunca tinha ouvido falar que rock fosse a religião de alguém. Mas então me dizes: a tua religião tem igreja?
 
- Temos sim, Elayne. É a Igreja Universal do Reino do Rock.
 
- Igreja Universal do Reino do Rock?
 
- Isso mesmo.
 
- E o que se faz na Igreja Universal do Reino do Rock? 

- Exorcismo. Fazemos exorcismo.

Ela esbugalhou os olhos. Exorcismo?

Adauto, ao perceber a expressão de incredulidade de Elayne, continuou.     

- Olha, Elayne, na Igreja Universal do Reino do Rock, é tudo muito simples. Não existem princípios religiosos nem tábua com os dez mandamentos. Também não tem código canônico nem hierarquia eclesiástica. E com certeza ninguém paga dízimo ou guarda os sábados - ele riu sozinho. - E vou logo te adiantando que não faço a mínima ideia se existe algo parecido com as tais “virtudes teologais” de que tu sempre falas. Tudo o que fazemos nessa igreja é exorcizar o demônio do corpo.

Ela riu.

- E que demônios são esses que vocês, da Igreja Universal do Reino do Rock, exorcizam? – Elayne perguntou sorridente, a enfatizar propositalmente o nome do templo.

- Depende. Tem muitos demônios, dos mais variados tipos. Alguns são mais fortes. Outros mais fracos. No passado, tínhamos “É o Tchan”, “Companhia do Pagode”, “Terra Samba”, “Harmonia do Samba”, Art Popular com “O Pimpolho”, “As Meninas” com “Xibom bombom”, Grupo Molejo com sua “Dança da Vassoura”, Só Pra Contrariar, Katinguelê, Negritude Junior, Os Travessos, “Babado Novo”, “Tiazinha e Vinny”, “P. O. Box” com “Papo de Jacaré”, Luka com “Tô nem aí” e vai embora. Eram demônios que se incorporavam com facilidade ao corpo de uma grande parcela da juventude brasileira, especialmente nos anos 90. Quase sempre eram demônios enviados por uma entidade maior e mais poderosa: o Exu de Axé – nosso maior inimigo e "rei dos abadás", "senhor todo-poderoso das micaretas". Felizmente hoje já exorcizamos todos esses demônios na Igreja.

- Amém.      

- Calma. É cedo para comemorar. Ainda temos muito trabalho pela frente. O Exu de Axé continua forte. Existem ameaças do passado que ainda estão por aí infernizando os corpos e ouvidos humanos, como Chiclete com Banana, Asa de Águia e o cantor Latino. Além disso, o Exu de Axé, que não é bobo, quando se tocou que estava perdendo força graças ao pessoal da nossa igreja, tratou logo de reagir. Matou alguns de nossos santos, como o Raul Seixas, o Renato Russo, o Cazuza, a Cássia Eller. Depois ainda foi se aliar a uma entidade demoníaca mais poderosa, chamada “Pomba Gira dos Monossílabos”, que tem como principal avatar o demônio “Tranca-Rua da Palavra”.

- Hum. Não é que é interessante? Continua.

- Pois bem – disse ele, enquanto se posicionava junto ao bebedouro para pegar um copo d’água. - O demônio "Tranca-Rua da Palavra" afeta a parte cognitiva do cérebro humano e impede a pessoa de conjugar verbos ou cantar palavras que tenham mais de uma sílaba. Foi graças ao "Tranca-Rua da Palavra", filho da "Pomba Gira dos Monossílabos", que surgiu o “sertanejo universitário”. Hoje é possível ver muitos jovens brasileiros possuídos por essa nova ameaça. Basta olhar a plateia de shows de duplas como Munhoz & Mariano, Guilherme & Santiago, Jorge & Mateus, além de Luan Santana, o seu genérico Gusttavo Lima, até a Paula Fernandes! Ali está todo mundo endemoninhado.

- Sabias que eu nunca tinha pensado nisso – confessou Elayne, surpresa com a própria confissão.

- Muitas pessoas ignoram isso. É normal. As entidades estão todas aí, firmes e fortes, cada vez mais. Pra piorar, de vez em quando novos demônios surgem. É o caso da Anitta e a feitiçaria do “show das poderosas”. E no carnaval todo mundo viu o que o “Lepo, Lepo”, do Psirico, o popular demônio da histrionice, foi capaz de fazer com o corpo das pessoas. Que vergonha ver alguém dançando daquela maneira! Aquela coreografia ridícula! Só estando possuído!

Adauto tomou seu copo d’água. Fez uma pausa. Refletiu um pouco. Finalmente prosseguiu com um ar frustrado.

- Mas é pena, Elayne, que nossa maior inimiga ainda não conseguimos derrotar.

- Quem é?

- A “Rainha Zumbi”.

- “Rainha Zumbi?”, repetiu Elayne já um pouco assustada.

- Sim. Ela é conhecida pela maioria das pessoas como Ivete Sangalo. Mas a verdade é que se trata de um demônio raro, dono de uma habilidade poderosíssima, que é a de hipnotizar os ouvidos. Quase a conseguimos eliminar na época da Banda Eva, mas ela é muito forte e escapou para fazer carreira solo. Aí a coisa piorou de vez. Com o apoio do governo e da Globo, ela se tornou a cantora mais famosa do País. Está em todo lugar. De trilha sonora de novela a festa agropecuária, de micareta de carnaval a especial de fim de ano do Roberto Carlos, só dá ela. Uma praga pros ouvidos! O demônio Ivete Sangalo é o responsável por possuir o corpo de milhares de brasileiros com aberrações auditivas como "Levada Louca", “Poeira”, “Carro Velho”, "Acelera Aê", "Qui Belê" e “Pomba Suja”. Ela não nos deixa em paz! E ainda invocou uma entidade irmã-genérica: Cláudia Leitte, que canta coisas como “Largadinho", "Me Pega de Jeito", "Pancadão Frenético", "Claudinha Bagunceira", "Reboladinha", "Dia da Farra e do Beijo" e "Segura na Corda do Caranguejo”. Sinto tanta pena do caranguejo. Lá no seu manguezal ele não faz ideia da humilhação por que passa.

- E não é, Adauto? - ela concordou, a rir timidamente, enquanto se deixava apaixonar mais e mais pelo moço.

- Mas na igreja ninguém perde a esperança, Elayne. Estamos trabalhando duro pra exorcizar o corpo dos fiéis dessas ameaças. Porque só alguém possuído pelo demônio pra tolerar músicas tão ruins, feita por gente semianalfabeta e que seria reprovada facilmente em qualquer teste básico de musicalização em um conservatório. Felizmente, não há demônio que o som dum riff de guitarra não possa exorcizar!
 
– Amém! 
 
E, em tom bastante entusiasmado, Adauto completou:
 
- Só o rock salva!

- Só o rock salva!

- Amém!

- Amém!

No dia seguinte, Elayne e Adauto saíram juntos pela primeira vez. Anos depois eles se casariam numa cerimônia inesquecível na Igreja Universal do Reino do Rock. Com muitos riffs de guitarra, é claro.  
 
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terça-feira, 18 de março de 2014

O HABITANTE SOLITÁRIO DE UMA TERRA DE NINGUÉM: ou a apologia de Masha Marshon contra a sociedade de baixo nível cultural


Foi ano passado que, caminhando pela vizinhança do conjunto residencial onde moro, flagrei crianças a ser instruídas por suas genitoras e cuidadoras a cantar. A intenção é nobre, pois, quanto mais precoce for a iniciação do infante na educação artística, tanto maiores as chances de ele vir a se tornar um verdadeiro artista (ou, pelo menos, um adulto com bom gosto para arte, que se recusa a aceitar qualquer porcaria que lhe vendem sem o mínimo de qualidade). Seria uma cena prosaica, portanto, não fosse o fato de que as crianças eram "educadas" ao aprendizado do funk "Piradinha" (que eu soube depois ser tema de novela global). "Como um pai ou mãe é capaz de ensinar ao filho o 'kitsch' sem nenhum pudor?", refleti tristemente. "Na minha infância", recordei-me, "eu cantava 'Aquarela' do Toquinho, 'A Casa' de Vinícius de Moraes". Em que ponto da história a inteligência brasileira morreu? Em que momento da nossa sociedade o baixo nível cultural alastrou-se mais que a peste bubônica pela Europa Medieval?
 
Foi tomado por essas reflexões, incontornavelmente acabrunhado por uma sombra dostoievskiana, espécie de mau agouro de quem muita vez se sente sozinho lutando contra a mediocridade imperante no campo da cultura, que tornei a casa. Estava triste. Ver pais supliciarem os próprios filhos com cousas do tipo de "Piradinha" não é fácil. É uma tortura psicológica das mais covardes, que ataca justamente aqueles que, não tendo o necessário discernimento para distinguir o "kitsch" da arte, caem na armadilha da vulgaridade e pobreza cultural. Tanto pior ser uma criança hoje. É possível mesmo que esses pais cruéis filmem seus rebentos a dançar coreografias constrangedoras, embalados por músicas cujos compositores seriam reprovados em um teste de musicalização em qualquer conservatório sério do mundo. Tudo filmado e documentado para a história em vídeos caseiros compartilhados no Youtube. Dá-me pena dos intelectuais do futuro. Alguns deles terão de conviver com um passado sombrio de superexposição em redes sociais. Alguns deles estarão condenados à humilhação pública perpétua que atende pelo nome engraçado de Google.
 
Eis que me ponho a pensar: que futuro tem uma criança educada num seio familiar assim, isto é, instigada a cantar "Piradinha", "Beijinho no Ombro" e composições vulgares desse nível? Daí surge o papel da escola, que hoje, mais do que nunca, precisa substituir os próprios pais na tarefa hercúlea de proporcionar às crianças o acesso à cultura. Sim, pois quem quiser formar sua bagagem "cultural" pela TV aberta está inevitavelmente condenado a participar do BBB em algum momento da vida adulta e se "eternizar" pateticamente em 15 minutos de fama (uma fama desprezível, a propósito). Preocupa-me pensar que nossa sociedade naturaliza a ofensa aos ouvidos de uma criança, como se ouvir "Piradinha", "Beijinho no Ombro" etc. não causasse dano cerebral num infans. Mas sobretudo me entristece saber que, no futuro, pessoas que apreciam a música erudita continuarão a ser minoria, vistos como "elitistas", "boçais", "preconceituosos", entre outros adjetivos que são comumente atribuídos àqueles que ousam resistir à vulgaridade de uma sociedade mediocrizada, que tem como "modelos de sucesso" panicats e atores globais baladeiros. Uma sociedade em que as pessoas pagam milhares de reais por um abadá, a fim de ver um trio elétrico passar com um sujeito cantando "Lepo, Lepo", mas que não se envergonha de nunca ter frequentado uma sala de concerto na vida. Que cultura é essa? Que sociedade é essa? Não sem razão o crítico literário Luiz Costa Lima já se definiu em entrevista como "o habitante solitário de uma terra de ninguém".
 
Curiosamente, as pessoas que tacham os amantes da cultura erudita de "preconceituosos", dado o fato de estes não se conformarem com a miséria cultural humana, são as mesmas que habitualmente escrevem críticas ao meu trabalho. A censura, obviamente, repete o discurso estereotípico: sou preconceituoso, sou elitista. E, no entanto, onde está o elitismo da música erudita? Vai-se falar em "elitismo" no Brasil, onde tal estilo só sobrevive à custa do patrocínio do Estado? Lamento dizer, mas já perdi a conta de quantos concertos gratuitos assisti com a sala esvaziada. Onde está o público? Simples: está a pagar milhares de reais num abadá de carnaval ou enfurnado numa casa de shows, a ver uma dupla sertaneja "universitária" cantar refrães "ricos" em monossílabos ininteligíveis. Não há problema nisso, reafirmo. O mau gosto (e o mau emprego do dinheiro) vai de cada um. Mas não é aceitável que tais pessoas venham a público invocar o qualificativo de "arte" para o lixo que consomem, acusando de "preconceituoso" quem simplesmente sabe diferenciar, dentro da Filosofia, os campos da democracia e da estética. É democrático deixar que todos toquem e cantem e ouçam o que quiserem. Isso é política. Mas aceitar que a palavra "artista" pode ser usada para designar indistintamente Heitor Villa-Lobos e Valesca Popozuda é um descalabro. Isso é estética. E é a este último campo que dedico minhas pesquisas e ensaios.   
 
Pois bem. Aos meus críticos, sinto dizer, mas hei de continuar a arrostar a mediocridade. Tal enfrentamento é a missão precípua do crítico de cultura (seja literário, musical, de cinema etc.). Um crítico que sucumbir ao kitsch, tratando-o com condescendência, frauda a confiança do seu público leitor. E um crítico precisa ter coragem. A mesma coragem de que se valeu o poeta austríaco Georg Trakl ao versificar os traumas de guerra no poema em prosa "Verwandlung des Bösen" ("Metamorfose do Mal"), o seu genial tour de force poético que é homenageado no título deste blogue. Porque no dia em que qualquer porcaria que alguém fizer puder receber o selo de "arte", sob o argumento pálido de que "gosto não se discute", então não só se terá esvaziado o papel da crítica (o que significa desprezar toda a obra de Otto Maria Carpeaux, George Steiner, Edmund Wilson, Harold Bloom, Álvaro Lins, Alfredo Bosi, Antônio Cândido, Pauline Kael, Susan Sontag, Paulo Ronái, Benedito Nunes, Jorge Luis Borges, D. H. Lawrence, Ernesto Sábato, Truman Capote, Alex Ross etc) como ainda a inteligência humana, tal qual a conhecemos, terá regredido, quiçá desaparecido. Voltaremos às cavernas! Ecce Homo! O homem de neandertal! 
 
Apesar disso, não faço gosto do tom derrotista. Um crítico (no limite também um filósofo) não se pode deixar abater, não obstante a solidão do seu ofício. A despeito desses maus exemplos da minha vizinhança (e olhem que moro num conjunto cujos habitantes estão muito longe de pessoas que se poderia alegar não terem tido oportunidade de acesso à cultura por falta de recursos financeiros; antes o contrário, há algumas pessoas até bastante abastadas), acredito que ainda há esperança no mundo. Existem crianças que, vocacionadas para a arte, podem produzir maravilhas, contanto que sejam instruídas de maneira adequada na sua educação artística. São crianças capazes de protagonizar momentos extáticos de beleza. É o caso da jovem violinista israelense Masha Marshon, que, com apenas 11 anos de idade, surpreendeu o mundo (ou, pelo menos, quem acompanha o cenário erudito no mundo) ao entregar uma belíssima interpretação de "Méditation de Thaïs", interlúdio que integra a ópera "Thaïs", escrita em três atos pelo francês Jules Massenet no século XIX. Compartilho, dessa feita, esse sublime momento de um talento infantil promissor. E que o exemplo de Marsha Marshon seja seguido. Vê-la tocar dessa maneira é o que me dá a esperança de um novo amanhã - o póstero onde o belo substituirá a fealdade e os amantes da cultura erudita não mais se sentirão sozinhos num barco a singrar um mar sangrento e ameaçador de vulgaridade, mediocridade e, para falar com estes nossos tempos internéticos, de "veneno digital".
 
Viva o talento de Masha Marshon!  
 

quarta-feira, 5 de março de 2014

COLUNA OBSERVATÓRIO DE METAMORFOSES COTIDIANAS: Paco de Lucía (1947-2014): Entre dos Aguas, Entre dos Mundos


Pouco antes do início do Carnaval, veio a notícia fatídica: Paco de Lucía morreu. Recebi-a por meio de um primo, violonista como eu, que lamentava numa rede social o falecimento do grande músico espanhol.
Paco de Lucía sofreu um infarto enquanto brincava com seus filhos numa praia do México. Não houve chance de salvá-lo. Infarto fatal, levou-o aos 66 anos. Jovem, se considerarmos a idade avançada a que muitas pessoas chegam hoje.
Infelizmente o infarto que matou o violonista parece ter sido tão fulminante quanto sua arte. Virtuose do violão, Paco de Lucía – nascido com o nome de Francisco Sánchez Gómez - notabilizou-se pela técnica exímia como que empunhava seu violão. A sonoridade que extraía do instrumento era potente. Suas mãos ágeis dedilhavam as cordas com tamanho vigor que a impressão do ouvinte era a de estar diante dum amplificador. E, no entanto, não estava. Havia apenas um homem e seu violão.
Paco de Lucía dedicou sua carreira ao flamenco. Compositor talentoso, na Espanha, já era um mito por suas rumbas. A mais conhecida é “Entre dos Aguas”. Mas é impossível não citar também temas como “Rio Ancho” e “La Barrosa”. Associando seu violão solo ao canto flamenco, Paco fez história por sua parceria com Camarón de La Isla, da qual resultaram nada menos que nove álbuns no período que se estendeu de 1969 a 1977.
Músico de talento inesgotável, Paco ousou levar o flamenco a outras paragens. Foi assim que atravessou continentes e foi alocar-se no jazz estadunidense. Aí gravou, em 1980, juntamente com os também violonistas Al Di Meola e John McLaughlin, um dos mais importantes álbuns do gênero no século XX: A Friday Night in San Francisco. Gravado ao vivo, trata-se de um registro impressionante do virtuosismo violonísitico. Basta ouvir uma composição como “Mediterranean Sundance” para ter a certeza de estar diante de uma obra-prima. Não sem razão, A Friday Night in San Francisco – que é um dos meus discos favoritos – influenciou toda uma geração de violonistas e guitarristas.  
Por todos esses motivos, hoje é impossível pensar a música flamenca, ou a cultura andaluza, sem que o nome do grande violonista espanhol seja citado. Paco morreu, semanas atrás, de infarto no México. Sua arte, sua música, todavia, permanecerá viva para sempre.   



Samba do Arnesto

O advogado e violonista Ernesto Paulelli (esq.) e o sambista Adoniran Barbosa.
Outra morte relacionada com a música foi a do advogado Ernesto Paulelli. Quase centenário, o causídico entrou para a história não propriamente por ser um grande jurista, senão pela carreira artística que desenvolveu muitas décadas antes de bacharelar-se em Direito e iniciar a militância na advocacia.
Ernesto era violonista e costumava acompanhar cantoras de samba. Em 1938, numa visita à Rádio Record, foi apresentado a Adoniran Barbosa. Este, ao saber do prenome do advogado, tratou logo de rebatizá-lo. “Seu nome dá um samba”, afirmou Adoniran. Dito e feito. O sambista transformou Ernesto em “Arnesto”. E o Arnesto virou samba: “Samba do Arnesto”. Até hoje um dos mais divertidos registros fonográficos da conduta do mau anfitrião (aquele que convida os amigos para um evento e escapole). Episódio que o Dr. Ernesto, o advogado, nunca admitiu ter ocorrido na vida real. Só pode ter sido coisa do Arnesto, então.  


E o Oscar de melhor filme vai para o “selfie” de Ellen DeGeneres

Foto do "selfie" realizado pela apresentadora Ellen DeGeneres: momento mais importante do Oscar 2014.
E a tradicional festa do Oscar acabou por coincidir com o Carnaval no Brasil. Com isso, dividiu a atenção da grande imprensa, que ora trazia notícias do desfile das escolas de samba, ora de outro desfile: o das estrelas de Hollywood pela tapete vermelho.
Particularmente, sempre tive sérias reservas ao prêmio do Oscar. Enquanto premiação baseada em critérios artísticos, a Academia é um engodo. Só assim se explica Rocky ter vencido Taxi Driver na categoria de melhor filme em 1977. O mesmo se pode dizer de “Gente como a Gente” ter derrotado “Touro Indomável” em 1981. Ao longo do tempo, sequer se pode dizer que houve evolução no rigorismo do prêmio. Resultados recentes, como a vitória de “Forrest Gump” sobre “Pulp Fiction” em 1995, e a absolutamente inaceitável escolha do fraquíssimo “Argo” como melhor filme em 2013, demonstram que o Oscar é uma festa que só se presta para tirar foto, exibir vestidos, marcas de estilistas e inflar o ego de celebridades. Serve para tudo, só não serve para cinema. É patente, já faz alguns anos, a baixa credibilidade dessa premiação.
Incomoda dizer isso. Sei-o bem. Mas infelizmente há quem leve o Oscar a sério enquanto celebração artística, negando-se a ver que não passa de artifício mediante o qual a indústria hollywoodiana premia o poder arrecadatório, as altas cifras investidas em campanhas, enfim, tudo que repercute na esfera mercadológica, na esfera do dinheiro (e quem duvida que haja corrupção, compra de votos nos bastidores?). Nesse sentido, a festa do Oscar é idêntica a qualquer evento promovido pela Federação das Indústrias de São Paulo (tudo bem, com um pouco mais de glamour).     
Que dizer então da transmissão pela TV brasileira? Uma festa que já é chata por natureza fica ainda pior com aqueles comentaristas que, não sendo críticos de cinema, quase nunca viram as obras que se propõem a avaliar ali. É constrangedor ouvir comentários do tipo "ele mereceu", "ela arrasou com esse vestido", "estou torcendo por ele". Profundidade analítica total. Pior ainda a tal da tradução simultânea. Quão ingrata é a tarefa dos coitados dos tradutores, que se desdobram para traduzir piadas que só fazem sentido mesmo na cultura estadunidense. Isso para não falar nos tais discursos dos vencedores, com aquelas lágrimas de crocodilo, e o lenga-lenga de agradecimentos a pai, mãe, esposa, cachorro, papagaio etc. que torna tudo um show da Xuxa insuportável - cafona e autopromocional.   
Por isso não surpreende que a cobertura jornalística da cerimônia realizada em Los Angeles seja sempre vergonhosa. Dá-se muito destaque aos vestidos de atrizes, ao passo que os filmes (o que realmente importa num evento desses) são citados de maneira en passant, muita vez na mais absoluta displicência, ou totalmente ignorados (caso dos documentários). O descaso pela nona arte explica, igualmente, que o tal “selfie” da apresentadora Ellen DeGeneres tenha chamado mais atenção da imprensa que o grande vencedor da noite - a película “12 anos de escravidão”. Quase todos os textos dos jornais e sítios na internet narraram o “feito histórico” de DeGeneres, que, com um autorretrato patético de celebridades hollywoodianas, obteve milhões de compartilhamentos em redes sociais. E o que isso importa para a arte? Nada, absolutamente nada. 
Não obstante, os mesmos jornais que davam destaque ao "selfie" replicado com entusiasmo em redes sociais não se arriscaram a explanar o valor artístico do filme dirigido por Steve McQueen, que características o credenciaram a receber o mais importante prêmio da noite ou qual sua relevância no contexto da cinematografia contemporânea. Os “12 anos de escravidão”, quem diria, levaram apenas alguns segundos para serem esquecidos pelo “selfie”.   
A esta altura o leitor já deve ter percebido que este colunista não perde seu precioso tempo de vida a assistir à transmissão do Oscar. Prefere empregá-lo de maneira bem mais útil para quem gosta de cinema, isto é, a ver os filmes que são tratados como produto de segunda categoria numa celebração que se importa mais com as celebridades ali presentes que propriamente com as obras postas para julgamento. Apesar disso, pelo menos um fato na festa deste ano despertou-me a atenção: o número musical de Bette Midler. A atriz e cantora apresentou-se no momento da cerimônia dedicado a homenagear aqueles profissionais ligados ao mundo da arte cinematográfica que faleceram em tempos recentes. Tinha tudo para ser uma bela e justa homenagem (notável a citação do brilhante documentarista brasileiro Eduardo Coutinho). Tinha, mas não foi. Bette Midler desafinou de maneira grotesca. No final, ainda perdeu o fôlego. E o que era para ser uma homenagem aos “mortos do cinema”, acabou por se tornar o sepultamento dos ouvidos humanos.


Quando a antipatia e a burrice tornam galãs da Globo feios (#sqn)

O ator Gabriel Braga Nunes na concentração da Escola de Samba "Grande Rio". 
E um grande jornal de São Paulo noticiou com o sensacionalismo de sempre que o ator Gabriel Braga Nunes, galã da novela das nove da Rede Globo, deu um show de antipatia na Marquês da Sapucaí, no Rio de Janeiro. Segundo a reportagem, ele se negou a tirar fotos com fãs na saída do desfile da Escola de Samba “Grande Rio”. Procuradas, as fãs do ator não esconderam sua decepção. “Eu achava ele bonito até agora. Mas ele é tão nojento que fica até feio”, disparou uma das moças.
Diante de uma notícia importantíssima dessas, eu me pus a imaginar como reagiram as fãs do ator Caio Castro ao saber do seu semianalfabetismo, pobreza intelectual, sua mais absoluta falta de cultura, manifesta no desprezo assumido pela leitura e pelo teatro. “Eu achava ele bonito até agora. Mas ele é tão burro que fica até feio”.
Infelizmente, é pouco provável que as fãs do ator Caio Castro tenham pensado dessa maneira. Porque para admirar um sujeito que se congratula nacionalmente pelo desprezo aos livros e ao teatro, é preciso não simpatizar com a cultura também. 
E ainda tem mulher por aí que se põe a dizer que inteligência num homem é afrodisíaco. Vai saber.    

Loira Burra do BBB 14

Em destaque,  Tatiele Polyana, a participante do BBB 14  que levou a fama de "loira burra" do programa.
Burra mesmo entre os mais burros. 
Enquanto o reality show Big Brother Brasil, na sua 14º edição, não acaba, o jornalismo de celebridades vai-se aproveitando do zoológico humano que a turma do Boninho, sob a batuta do pseudopoeta e ex-jornalista de respeito Pedro Bial (e pensar que ele cobriu a queda do muro de Berlim...), armou numa casa cercada de câmeras.  
Na última coluna tratei da “periguete” Letícia Santiago, mais uma dessas “vergonhas jurídicas” que ostentam um diploma de bacharel em Direito, não obstante seu semianalfabetismo descarado.  Pois agora fico sabendo por meio dum conhecido sítio de entretenimento na internet que a participante Tatiele Polyana, apelidada de Poly por seus colegas debiloides, encarnou o estereótipo da “loira burra”. A moça, que detém atributos corporais inegáveis para cumprir o seu objetivo de vida (ser capa da Playboy e descolar uma graninha), estaria a protagonizar várias tentativas de homicídio contra a língua de Camões no programa. Segundo apurou a reportagem, a beldade loira cometeu os seguintes erros gramaticais: confundiu “mosqueteiros” com “escoteiros”; ao falar de astrologia, trocou “ascendente” por “cedente”; pronunciou “gafe” como se fosse “gáfia”; chamou “amídalas” de “amídolas”; ao se declarar para um dos participantes, disse que sentia um amor “patônico” (e não platônico) por ele; confidenciou a uma amiga próxima na casa que sempre achou que “estupro’ na verdade fosse “estrupo”; demonstrando todo o seu conhecimento na geografia do País, perguntou se Porto Alegre tem praia; soletrou “ostentação” com “h” (h-o-s-t-e-n-t-a-ç-ã-o). Mas a melhor de todas para mim foi esta aqui: na prova do líder, Bial perguntou para Slim e Letícia (sim, ela mesma, nossa sapientíssima bacharela em Direito!) quem escreveu o romance “Dom Casmurro”. Como nenhum dos dois conseguiu lembrar o nome do maior escritor brasileiro, Poly resolveu ajudar e perguntou aos colegas: “O que é ‘Dom Casmurro’?”. Nessa hora, Machado de Assis deve ter-se revirado no caixão.
Para ser sincero, o que verdadeiramente preocupa este colunista não é nem o assassinato a que está a ser submetida a língua portuguesa. Tais atentados contra a gramática são previsíveis num programa que se propõe a reunir numa casa os filhos da classe média que, não obstante o patrimônio familiar que lhes faculta o acesso à cultura, nasceram com o cérebro do tamanho duma casca de noz e o QI de uma ostra. O que preocupa mesmo este colunista é saber que a loira já arrumou um namorado dentro da casa que a compreende e apoia. Ou seja, ato contínuo ao ato sexual que eles certamente hão de protagonizar sob o edredom, mas ainda diante das câmeras do reality show, logo teremos a fusão de dois códigos genéticos em relação aos quais a natureza foi cruel o bastante para suprimir integralmente os neurônios. Assim, tudo o que este colunista pode dizer é que sente, desde já, pena dessa criança nas provas da escola. Não vai ser nada fácil ser aprovado no ENEM após herdar o patrimônio genético de um casal que se forma num programa como o BBB (e cuja genitora consegue o feito histórico de ser considerada "burra" mesmo por aquelas pessoas que já são, de per si, as mais burras nos seus respectivos extratos sociais). Talvez por isso o "esquecido" Machado de Assis, autor do "ignorado" romance "Dom Casmurro", tenha afirmado que não teve filhos, porque não quis transmitir a nenhuma criatura o legado de nossa miséria.     

Micareta não é carnaval. "Lepo, Lepo" não é samba enredo

Capa do single "Lepo, Lepo", do grupo Psirico, "hit" na micareta carnavalesca de Salvador em 2014.

Usando dum aparelho de telefone celular inteligente, dias atrás estive a conversar com uma amiga sobre o Carnaval. Na ocasião, contestei o caráter carnavalesco da festa em Salvador. De fato, se observarmos com cuidado, verificaremos que, no carnaval na capital baiana, há muitas peculiaridades: o trio elétrico substitui o carro de desfile, os hits de axé substituem as marchinhas, abadá substitui fantasia, e samba enredo simplesmente não existe, porque a caminhada sai de um ponto a outro sem qualquer finalidade de julgamento artístico. Onde está o carnaval? Para este colunista, carnaval encontra-se em cidades como Rio de Janeiro, São Paulo etc. O que ocorre em Salvador é micareta carnavalesca, que é evento no qual as pessoas pagam caro para ouvir música ruim e puxar umas as outras pelos cabelos, beijando-se lascivamente na famosa “pegação” (nunca entendi o que leva uma mulher a se submeter a um ritual de conquista desse nível, desrespeitoso ao extremo, sobretudo cercada por homens que se comportam como se vivessem alijados da civilização, nas montanhas com os gorilas ou numa caverna de neandertal). No "carnaval" em Salvador, a impressão que fica é a de que tudo o que importa é “levantar poeira” e “pegar geral”. Onde está a proposta artística? Até mesmo o caráter popular da festa, tradicional nos “blocos de rua”, já se perdeu, haja vista o fato de os abadás custarem uma pequena fortuna, tanto que até a classe média precisa parcelar de dez vezes no cartão para poder pagar (vale lembrar que um abadá do bloco do péssimo Chiclete com Banana estava a ser vendido ao custo absurdo de R$ 3.500,00).  
Este colunista, portanto, salvo melhor juízo em contrário, mantém a opinião que sustenta desde a sua infância e adolescência - período no qual a axé music viveu seu apogeu e decadência comercial no Brasil e do qual o colunista orgulha-se de ter saído incólume, sem nunca ter vestido um abadá, já que seu ouvido nunca tolerou “danças da bundinha”, danças da garrafa” ou “rebolations”. “E que opinião é essa?”, indaga o leitor. Simples: Salvador não tem carnaval, tem micareta. Abadá não é roupa, é ingresso. E axé music não é música, é trilha sonora para vender abadá. Ah! Antes que me esqueça: “Lepo, Lepo” não é marcha de carnaval nem é samba enredo; é demonstração de oportunismo (de quem canta), mau gosto (de quem ouve) e falta de respeito próprio (de quem dança a coreografia desse lixo). 
PS: Em respeito aos poucos leitores que prestigiam o trabalho deste colunista, poupá-los-ei de reproduzir aqui o vídeo clipe do hit "Lepo, Lepo".       

Minha folia é na Folía


Conversando com outra amiga, esta musicista, via mensagens trocadas por um aplicativo de telefone celular, fui perguntado a respeito do meu carnaval. Respondi a ela que aproveitei bastante a festa na folía (com acento agudo mesmo). Ela ficou sem entender. Conhecendo-me dos tempos do conservatório, instituição onde estudamos juntos (ela violinista, eu violonista) e sempre tivemos muita afinidade pelo nosso amor à arte, sempre fomos muito próximos (tão próximos que chegamos a engatar um namoro), disse que desconhecia o meu lado folião. “Para alguém que sempre buscou direcionar seus estudos violonísticos em prol da formação dum repertório de música erudita inglesa renascentista e do barroco alemão, saber que tu pulas carnaval é uma surpresa e tanto”.
Pois este colunista reafirma: embora não seja do seu perfil pular o carnaval, nada tem contra a festa. Muito pelo contrário. Ressalvados os excessos, a exemplo da embriaguez no trânsito e as brigas entre foliões, a celebração da quadra momesca é momento singular da cultura brasileira. Desprezá-la é ignorar o que de original e característico existe no País. Portanto, este colunista gosta, sim, de carnaval, ainda que prefira permanecer no conforto do seu lar, a usufruir o descanso deste longo e extremamente bem-vindo feriado.  
Entretanto, a amiga musicista equivocou-se ao não perceber que o acento agudo no “i” era diferencial (não pelo viés da gramática, mas sim da teoria musical). Na realidade, o colunista falou a sério quando disse que aproveitou bastante a folía. Pois “folía”, com acento agudo, remete à “folía de España”, gênero musical europeu antigo, tão antigo que um de seus primeiros registros está anotado na obra do dramaturgo português Gil Vicente (a afamada "dança dos pastores").
Assim, quando respondi a esta amiga, embora ela não se apercebesse, referia-me aos esquemas harmônicos que compõem os temas da “folía”, e que têm no músico Jordi Savall, exímio especialista na viola da gamba, um dos seus grandes pesquisadores no mundo.

Tal qual Jordi Savall, a “folía de España” faz mais o meu estilo que a “folia do Brasil”.